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Familia Real

28/12/2008 13:06

O fator Chimarrão

Ganhei um presente de Natal mais especial de uma gremista. Um kit com Cuia, com distintivo do Grêmio, a bomba e um pacote de Erva-mate.

O Ritual do Chimarrão:

Dentre as tradições Gaúchas o chimarrão é uma das mais marcantes e tradicionais. No Rio Grande do Sul, praticamente em todas as casas você encontra uma cuia, uma bomba de chimarrão e uma boa erva-mate. Faz parte da tradição tomar chimarrão diariamente. Há quem tome chimarrão durante todo o dia, mas os horários mais comuns são: logo pela manhã; ao anoitecer, quando a família se reúne (antes da janta); quando se recebe alguma visita. Isso chega ser automático … assim que chega a visita o patrão da casa (anfitrião) faz um chimarrão. Então, se for visitar um gaúcho, não estranhe se ele lhe oferecer um chimarrão !!

“Tomar chimarrão é um ato amistoso e agregador entre os que o fazem, comparado muitas vezes com o costume do cachimbo da paz. Enquanto você passa o chimarrão para o próximo bebê-lo, ele vai ficando melhor. Isso é interpretado poeticamente como você desejar algo de bom para a pessoa ao lado e, conseqüentemente, às outras que também irão beber o chimarrão.”.

Para os gaúchos, o chimarrão é como se fosse um cerimonial e é praticamente obrigatório para receber visitas !!

O chimarrão tem algumas regras:

A água do chimarrão não deve ser fervida. Ela deve esquentar o suficiente para fazer a chaleira “chiar”. A água fervente estraga o chimarrão, pois queima a erva e o chimarrão fica amargo !
Quem faz o chimarrão (patrão) é quem toma o primeiro, justamente por ser o pior (mais amargo e forte).
Você deve tomar o chimarrão até o final, ou seja, a cuia deve roncar ! Não é como o “cachimbo da paz” que você traga uma vez e passa adiante. Se considera uma situação desagradável quando o chimarrão é passado adiante sem ter roncado !
Não mexa na bomba ! Somente em situações extremas e mesmo assim, com muita cautela. Somente mexa se a bomba estiver entupida. Isso pode estragar o chimarrão, deixando-o amargo !
Quando estiver visitando, sempre vai existir um “patrão” ou "mateador" ou "servidor", que é o encarregado de encher a cuia com água quente, antes de passar cuia para as mãos de outra pessoa (próximo da roda).
Quando não existir um “patrão” (enchedor), depois de sugar toda a água, deve também renovar a água antes de passar a cuia ao próximo da roda. Nunca passe adiante uma cuia vazia !!
Por ser objeto de integração, não se deve excluir ninguém da roda, a não ser que o próprio se exclua. Então, se tiver alguma feridinha na boca, rejeite o chimarrão.
Tome seu chimarrão com cautela, pois é uma bebida quente e você pode queimar sua língua se sugar muito rápido.
Não demore para tomar seu chimarrão, principalmente se a “roda” de participantes for grande !! Lembre-se: “Cuia não é microfone !”.
Existem muitas outras regras e tradições sobre o chimarrão, porém, seguindo essas você não vai fazer feio e vai poder aproveitar bem essa bebida e fazer amigos !!
Autor: Alessandro


Quero agora postar o texto de Moacyr Scliar, Médico e escritor, Sobre o Chimarrão

"Há algumas semanas esteve em Porto Alegre o professor norte-americano Clifford Landers, grande divulgador da literatura brasileira nos Estados Unidos e tradutor de, entre outros, Rubem Fonseca e João Ubaldo. Num domigo pela manhã, levei-o a conhecer Porto Alegre. Terminamos no brique da Redenção, onde ele ficou maravilhado com o movimento e, sobretudo, com o número de pessoas tomando chimarrão. Disso podemos nos orgulhar. O McDonald's está em todo o mundo, a Coca-Cola também, mas o chimarrão continua sendo autenticamente gaúcho. A pergunta é: por quê? Porque não aconteceu com a erva-mate o mesmo que com o café e o tabaco, transformados em "commodities" globais? Exatamente por isso, porque o chimarrão não é cômodo. A térmica dispensa o fogo e o trempe, mas, de qualquer modo, preparar a infusão continua requerendo elaborado ritual, muito mais elaborado do que extrair um cigarro do maço e acendê-lo. Não houve maneira de industrializar o chimarrão como foi feito com o café, com o cacau, com o tabaco e até mesmo com a cocaína. Sim, há o chá de mate, e é uma bebida agradável, mas é uma coisa bem diferente. A cultura do chimarrão é uma cultura artesanal. Mais do que isso, ela não está associada a nenhum dos valores da sociedade competitiva, de consumo. Café e coca são estimulantes, o cigarro, ao menos em uma época, foi símbolo de status, o chocolate era até considerado afrodisíaco. O modesto mate não tem essa aura. É verdade que ganhou fama de diurético, mas, com a quantidade que se toma, teria de ser diurético mesmo, e, além disso, quem precisa urinar tanto? Por outro lado, pesou sobre o chimarrão a suspeita de que estivesse associado ao câncer de esôfago. Isso, felizmente, não se confirmou. Os fumantes que tomam mate estáo mais sujeitos à doença, mas isso se deve à forma de efeitos da água quente e das substâncias cancerígenas do tabaco. Se for o caso, é preciso larga o cigarro. O que seguramente será um benefício. Não é preciso atribuir ao mate poderes medicamentosos. Seu mérito é de outra natureza: congrega as pessoas, estimula o sentido de camaradagem. O que tem óbvios benefícios emocionais. Num mundo ameaçado pela homogeneização, a cultura gaúcha, teimosamente, gloriosamente, sobrevive. O que é muito bom. Identidade é algo a ser preservado, inclusive por se tratar de componente importante da saúde mental. Melhor tomar chimarrão do que recorrer aos psicotrópicos como forma de preencher o vazio existencial."

enviada por Gui





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